segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Monólogo.




Ato 1



Cena 1



Monólogo de véspera de Feriado



Uma penteadeira com espelho; um pufe; uma cadeira do outro lado do palco com um sutiã, meia-calças, uma bolsa e outras coisas jogada em cima; um porta-chapéus com um vestido pendurado; um abajour antigo no meio do 'quarto'; um par de sapatos jogados pelo chão. Na bancada da penteadeira tem maquiagem espalhada, brincos, um cinzeiro, uma carteira de cigarros, esqueiro e colares pendurados no espelho.

A luz do palco e do abajour vão saindo do blackout e abrindo, enquanto ela começa a dar os versos do poeminha.




Mulher - "Quero decretar feriado no dia que eu te esquecer. No dia que eu passar ao teu lado e meu coração não se perder novamente, decretarei feriado em mim. Feriado eterno de ti."

(Pausa. Luz estabiliza. A mulher está apenas de calcinhas no palco, sentada sobre o pufe, passa maquiagem no rosto, os cabelos longos cobrindo os seios. Está sentada de modo que o público vê apenas o seu reflexo no espelho, ela está de costas)

De quem eu estava falando? Você não conhece. (Pausa) E mesmo que conhecesse, eu não diria. Porque... Eu esqueci, lembra? (Tira um cigarro da caixa. Continua a passar maquiagem, olhando-se atentamente no espelho)

No começo eu pensava que ele fosse algo a se lembrar. Mas agora eu acho que não. Eu só quero esquecer. E esquecer. E esquecer... Até que eu possa lembrar, sem lembrar porquê eu quis tanto esquecer, sabe?

(Pausa. Termina de se maquiar, vira-se. Caminha pelo palco, pega a meia-calça)

Esse é meu ritual. Primeiro eu esqueço de como eu era quando o conheci. Depois eu esqueço como eu parecia quando o conheci. Depois eu deixo aquela menina de lado, me pinto de mulher, (Pausa. Pega o cigarro, olha para ele e acende enquanto anuncia o ato) acendo um cigarro...

O cigarro é algo a se lembrar. Foi amor à primeira tragada. Até hoje, o cigarro é o meu amante mais fiel. (Ri. Fala entre uma baforada ou outra de fumaça) Isso não quer dizer que eu não tente esquecer ele de vez em quando, mas sempre volto atrás.

(Pausa. Começa a tentar vestir a meia-calça, lenta e calmamente, enquanto inicia nova fala)

Mas agora o que eu quero esquecer é aquele rapaz. Ele me faz sentir tão feia, que eu me arrumo cada vez mais. Ele pode até não me olhar, mas eu sei que ele nota todos os outros olhares para mim. Mas ainda assim ele consegue me fazer sentir feia. Cansei de prender a respiração sempre que o vejo. Os outros olhares não me importam... Eu quero esquecer. Mas eu não posso tentar esquecer ele, esquecendo de mim.

Ele faz parte de quem que eu já fui. Depois de um cigarro... Eu gosto de acreditar que limpo a minha mente de qualquer coisa que me lembre dele, se funcionasse tão bem quanto eu queria, eu não fumaria tanto. O que custa acreditar, né? Um cigarro, um ponto pro esquecimento. (Pausa) Mas pra isso é preciso lembrar. É preciso lembrar pra esquecer. (Procura algo) Onde eu coloquei? (Levanta-se e procura pelo palco, encontra o sutiã, virada de costas o veste, volta para a penteadeira, pega um relógio e olha a hora) Daqui a pouco tá na hora do meu remédio.

Bastante cerveja, flerte, carinhos casuais. Tudo menos ele. E é bom, mas é incompleto. Gosto de pensar que eu estou quase lá. Quase perdida em amnésia alcoólica e quando eu acordar, eu não vou lembrar de como os olhos dele são, o sorriso, o timbre. (Veste o vestido que estava pendurado no cabideiro) estou pronta (Pausa. Olha no espelho). Agora chegou a minha hora de ir e de esquecer um pouco mais. (Apaga o abajour, a luz baixa para a penumbra. Sai)



Fim.

Nina C.

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